O musical da MGM não foi apenas Arthur Freed

É inegável que o produtor Arthur Freed, juntamente com os talentos dos realizadores Vincente Minnelli e Stanley Donen e dos atores Judy Garland, Fred Astaire e Gene Kelly, conseguiu, numa perspetiva generalista, a melhor colheita de musicais clássicos.

1418735679760
Arthur Freed, produtor de pérolas como Meet Me in Saint Louis (1944), Easter Parade (1948), Ziegfeld Follies (1945) e, claro, Singin’in the Rain (1952)

Porém, inquieta-me saber que os também bons produtores Jack Cummings e o Joe Pasternak, bem como os realizadores e estrelas a eles associados, estão a correr o risco de entrarem num rio bravo sem retorno, ficando esquecidos para todo o sempre.

Joe_Pasternak
Joe Pasternak, que produziu alguns dos meus musicais favoritos como Bathing Beauty (1944)

 

Há musicais a serem descobertos, reivindicados. Há maravilhas ocultas que não me canso de procurar e desvendar. Pasternak tinha o lema “nunca fazer pensar uma audiência” e, inegavelmente, levou à letra tal premissa, dado os seus filmes na MGM estarem repletos de uma aura kitsch apetitosa, embrulhada por uma estética opulenta, sendo esta banhada em technicolor e envolta por um belo laço cor-de-rosa.

 

O mundo fantástico de Pasternak

 

Depois da sua estupenda etapa monocromática com Deanna Durbin na Universal, Pasternak, já em casa do Leão, conseguiu extravagantes proezas com os seus musicais operáticos, deixando brilhar na sua total plenitude Kathryn Grayson (que eleva a sua voz trémula no clássico Anchors Aweigh) e a melhor cantora Jane Powell, que ainda está connosco e que nos deixou, a meu ver, encantadoras interpretações em musicais adolescentes como Holiday in Mexico e A Date with Judy.

 

A simpática June Allyson, a nadadora Esther Williams e a sexy girl next door Gloria DeHaven são outras estrelas que conseguiram brilhar sob a mão de Pasternak e que, tal como o produtor, merecem ser reapreciadas.

Gloria deHven e June Allyson entraram am alguns filmes juntas sob a produção de Pasternak. O filme mais conhecido é Two Girls and a Sailor (1943) que, sinceramente, aborrece-me. Mas vale a pena ver June Allyson em Two Girls from Boston (1946) e Gloria deHaven em Summer Stock (1950).

 

Three Little Words (1950)

 

kathryn g2
Kathryn Grayson, a cantora operática estrela de Show Boat (1950) e Kiss Me Kate (1953)

Cummings deixou-nos filmes mais emblemáticos, respeitados, como Three Little Words, Kiss Me Kate (Grayson nunca esteve tão bem), o clássico Seven Brides for Seven Brothers (embora este seja o mais conhecido filme de Powell, o meu favorito é mesmo o injustamente subvalorizado Two Weeks with Love) e o melhor filme de Elvis Presley, Viva Las Vegas (acompanhado por uma belíssima e energética Ann-Margret). É interessante constatar que os filmes mais conhecidos de Grayson e Powell foram produzidos por Cummings e não pelo seu principal “mentor”, Pasternak.

Kiss_Me_KateKiss Me Kate (1953)

two-weeks-powell-montalban-dream-2O meu querido Two Weeks with Love (1950)

Nos nos esqueçamos de celebrar igualmente diretores que trabalharam frenquentemente com Pasternak ou Cummings, como Henry Koster, Norman Taurog, Richard Thorpe, Charles Walters e George Sidney. Pessoalmente, aprecio mais os musicais de Walters e Sidney aos de Minnelli. É certo que não têm o mesmo nível artístico mas, caramba, têm uma mão cheia de filmes agradáveis, refrescantes, alguns deles verdadeiros clássicos. Foi Walters quem pôs Williams a nadar com o Tom e Jerry e Garland a interpretar o seu icónico Get Happy. Sidney, um dos meus realizadores de eleição, fez Sinatra e Hayworth brilharem em Pal Joey e, conseguindo acompanhar os novos tempos, deixou Elvis menear as ancas naqueles tumultuosos anos 60.

çpalPal Joey (1957)

Vivemos numa época de mediocridade assombrada por um fantasma pseudointelectual e pretensioso que valoriza um filme apenas se ele for “chato” (porque isto é sinal de alta cultura). Nada mais revoltante. Há filmes lights encantatórios e devemos ter capacidade crítica para os valorizar. Afinal, o cinema é essencialmente entretenimento.

Elvis Ann MargretElvis Presley e Ann Margret, pura dinamite

 

Esta crónica foi por mim escrita para o jornal O INTERIOR. Pode ler-se através do seguinte link: http://www.ointerior.pt/noticia.asp?idEdicao=934&id=56414&idSeccao=13598&Action=noticia

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s